SCHIAPARELLI – FEMININA, SURREAL E PODEROSA

A MARCA MAIS EXTRAVAGANTE E AUTORAL DO SÉCULO XX VOLTA A CHAMAR A ATENÇÃO NO TAPETE VERMELHO NESTE INICIO DE 2021
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14.03.2021

Sipa Press / Daniel Roseberry / Reuters

A cantora Beyoncé não dá ponto sem nó. Ao receber neste último domingo (14), o 28º Grammy de sua carreira – quebrando o recorde como a artista mais premiada nos 63 anos do evento – vestia couro preto em uma cintura bastante marcada, ornando brincos gigantescos com diversidade de referências artísticas e portando luvas pintadas com unhas douradas e afiadas. Ou seja, a imagem da mulher poderosa, produtiva e contemporânea, e ao mesmo tempo glamurosa, feminina e sexy, que comunica não só com a sua própria comunidade negra, mas literalmente com o mundo inteiro por meio da sua música e do seu figurino marcante.

A grife escolhida por Beyoncé que é, de acordo com a Forbes, uma das mulheres mais influentes do entretenimento global, foi Schiaparelli, ligando pontas e fazendo história, afinal Elsa Schiaparelli foi uma das costureiras e empreendedoras mais dinâmicas, inovadoras e imaginativas do século passado e é agora revivida pelo atual estilista da marca Daniel Roseberry. Com o álbum “Black Parade”, que traz a mensagem universal de celebração da identidade, Beyoncé faz mais uma vez, uma dobradinha certeira com a Maison Schiaparelli.

BEYONCÉ – GRAMMY 2021

O look de Lady Gaga durante a posse do presidente Joe Biden há poucas semanas nos Estados Unidos também causou um impacto duplo em sua mensagem de força e paz. Ao cantar o hino do país, a estrela exalou, com sua ampla saia vermelha – cor símbolo da paixão – a necessidade de uma nova energia de reconstrução, ao mesmo tempo em que o imenso broche dourado de uma pomba no peito clamou por dias mais serenos e pacíficos. Não é de hoje que um figurino tem o poder de transmitir tantas mensagens em alguns metros de tecido costurado e complementado por bons acessórios.

LADY GAGA NA POSSE DE JOE BIDEN

O responsável por esse alinhamento com Lady Gaga – que possui histórico de quebrar convenções em suas apresentações, além do reconhecido posicionamento pelo próximo – é novamente o diretor de criação da grife Schiaparelli, Daniel Roseberry, que segue de perto os ensinamentos e provocações artísticas deixados por sua inventiva antecessora.

A MODA E O CENÁRIO CULTURAL

Na semana passada, outra de suas criações causou furor durante o Critic’s Choice Awards, quando Emma Corrin recebeu o prêmio de melhor atriz em série dramática por sua atuação de Lady Di em The Crown. O vestido curto, com um decote gigantesco em forma de gota e detalhes fora do padrão em pérolas combinando com maxi-brincos no mesmo estilo, foi quase um susto. A delicadeza das feições da intérprete e seu jeito amável de agradecer demostraram, por conta da roupa escolhida, ser apenas a face externa de uma mulher de expressão, determinada, segura, moderna e bem-humorada: os elementos-chave na construção da Maison Schiaparelli há quase 100 anos.

EMMA CORRIN NO CRITICS CHOICE AWARDS 2021

A italiana Elsa Schiaparelli abriu a sua Casa de Costura, em Paris, no ano de 1927. Descendente de uma família tradicional de Roma, cresceu como uma jovem cheia de ideias controversas para a sua época. Ao publicar um livro de poesias eróticas, foi enviada para um colégio de freiras e só foi resgatada quando fez greve de fome. Depois disso viajou para Londres, casou-se com um Conde, e foram morar em New York. Lá ela engravidou e quando o marido a deixou – além do falecimento do pai – precisou realmente trabalhar. Baseou-se então na capital francesa, promovendo passeios turísticos para ricas mulheres americanas.

1938: O TAILLEUR COM BOLSOS EM FORMATO DE BOCA – COMPLEMENTADO PELO CHAPÉU-SAPATO

Foi apenas quando conheceu um grupo de excelentes tricoteiras polonesas, que Elsa deu o pontapé inicial em sua futura e bem-sucedida aventura como estilista, criando a primeira blusa de tricô com uma técnica trompe l’oeil, ou seja, com a ilusão de ótica de um laço decorativo. Assim que ela usou o pullover para almoçar com as suas amigas da alta-sociedade, todas quiseram um.

ELSA SCHIAPARELLI VESTE SUA BLUSA DE TRICÔ COM A TÉCNICA TROMPE L’OEIL

E o empreendimento já começou diferenciado: enquanto grifes como Chanel – sua maior concorrente – tiravam do papel uma moda simples, elegante e sem afetação, Schiaparelli foi pelo caminho da transgressão visual, brincando com o elemento-surpresa e boas doses de humor em seus trajes. Admiradora e amiga da classe artística que residia em Paris, a estilista era apaixonada pelo Movimento Surrealista, que atingiu o seu auge nos anos 30. Grandes nomes como Salvador Dali, Man Ray, Jean Cocteau e Alberto Giacometti fizeram parceria com Elsa em inúmeros projetos: de peças para o guarda-roupa feminino, passando pela criação de frascos de perfume e também de figurinos para espetáculos.

50 ANOS DA MORTE DE COCO CHANEL – LEGADO DA ESTILISTA SUPERA SUAS CRIAÇÕES

ELSA SCHIAPARELLI E SALVADOR DALÍ

Sua mente inventiva procurava deixar uma marca de avant-garde no vestir do momento; uma vanguarda que quebrava com ideias convencionais e buscava fantasia e imaginação.

COLABORAÇÃO ENTRE O SURREALISTA SALVADOR DALÍ E A ESTILISTA ELSA SCHIAPARELLI – ANOS 30

Mas muito além do seu olhar revolucionário, Schiaparelli era uma mulher de negócios, e foi a primeira a tomar várias decisões para a moda que nos acompanham naturalmente até os dias de hoje. Foi ela quem introduziu o fecho na alta costura, em 1935. Até então o zíper era um item usado apenas em roupas da classe trabalhadora. Criou o tom de rosa-choque em 1937, chamando assim seu primeiro perfume. Em 1939, usou a camuflagem pela primeira vez em seus designs. Foi ela também quem trouxe temas para as coleções, nomeando cada lançamento com títulos sugestivos e apresentando suas criações em verdadeiros shows temáticos que aconteciam ao redor das modelos desfilando – seu tino artístico claramente antecipando os desfiles-espetáculo que se tornaram comuns em muitas marcas de luxo, anos depois.

PERFUME ROSA CHOQUE – FRASCO DESENHADO PELA PINTORA SURREALISTA LEONOR FINI / 1938

Dois dos grandes criadores mundialmente conhecidos da costura francesa tiveram o início de suas carreiras com Schiap, como ela era chamada: Pierre Cardin e Hubert de Givenchy. Este último foi o diretor criativo da marca entre 1947 e 1951 (e esta colunista, ex-modelo, tem o orgulho de poder contar, neste parênteses, que trabalhou com Givenchy – um senhor elegantíssimo – no ano de 1992, em uma temporada em New York).

CHAPÉU DA COLEÇÃO INTITULADA “PAGÔ – 1938

Elsa Schiaparelli fecha o seu negócio em 1954 (não sem antes atingir a cifra de 18 milhões de itens licenciados e vendidos com o seu nome) e passa a se dedicar à sua autobiografia, “A Shocking Life”, falecendo em 1973. Foi apenas no ano de 2006 que a marca foi comprada e revitalizada pelo grupo italiano Della Valle, que em 2012 reabre a Casa de Costura no mesmo endereço da antiga Maison, em Paris.

LIVRO – A SHOCKING LIFE

De lá para cá, Schiaparelli tem ressurgido cada vez mais forte, e com o atual director artístico, Daniel Roseberry, dá sinais de que a herança criativa única e mágica da lendária fundadora está bem inserida no novo DNA. Como disse Beyoncé em seu agradecimento no Grammy: “como artista, acredito que o meu trabalho e o trabalho de todos nós, é refletir os tempos”. Tempos nossos em que as mulheres de todas as cores, tipos físicos, idades e preferências se fortalecem e se impõem positivamente a cada dia.

DETALHE DO CASACO DA COLEÇÃO “LE CIRQUE”, QUE TRAZ TRAPEZISTAS DESENHADOS PELO ARTISTA PLÁSTICO ALBERTO GIACOMETTI. NO LANÇAMENTO DESTA LINHA EM 1938, SCHIAPARELLI CRIOU UM DESFILE-ESPETÁCULO COM ARTISTAS CIRCENSES – ÉPOCA EM QUE AS APRESENTAÇÕES DE COLEÇÕES ERAM SÉRIAS E SILENCIOSAS

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