MARTA, FORMIGA E A EQUIDADE DE GÊNERO NO MERCADO DE TRABALHO

AS MULHERES DEVEM TRABALHAR O DOBRO PARA SEREM NOTADAS ONDE, MUITAS VEZES, O DESEMPENHO É SUPERIOR AOS HOMENS
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27.09.2021

Sam Robles / CBF

Há algumas semanas, Neymar, após a vitória da seleção brasileira contra o Peru, declarou que está cada vez mais próximo do recorde de gols de Pelé na história da seleção (69 de sua autoria, contra 77 do veterano). Naquele momento, no Twitter, Patrícia Pillar criticou a fala do atleta, declarando que havia sido indelicado, uma vez que Pelé, aos 80 anos, passava por uma cirurgia de retirada de um tumor. Neymar, na mesma mídia social, ironizou em resposta: “Ah pronto, tenho que parar de fazer gol agora”, rebateu. 

Enquanto os holofotes voltavam-se para essa discussão na rede social, onde muitos brasileiros acreditavam que a grande artilharia do futebol nacional pertencia a um homem, eis que surge a notícia de que Marta Silva é a grande artilheira de todos os tempos com a camisa da Seleção Brasileira, contabilizando 116 gols efetuados pela jogadora, em 171 jogos.

Mesmo sendo essa grande estrela, Marta não perde a humildade. Pelé assistiu a um jogo que a ela disputava contra Argentina e, ao invés de se pôr em rivalidade, afirmou: “Uma honra saber que ele está acompanhando o futebol feminino. Gratificante demais. Obrigada ao rei”.

Ademais, a jogadora Formiga, de 43 anos, se tornou recordista em participação em Jogos Olímpicos, pela Seleção Brasileira de Futebol Feminino, presente em sete edições, desde 1996, em Atlanta. É a única pessoa do mundo a ter participado, como atleta, de 7 Copas do Mundo. Possui duas medalhas de prata olímpicas (Atenas, 2004 e Pequim, 2008), e duas medalhas em Copa do Mundo: uma de bronze (Estados Unidos, 1999), outra de prata (China, 2007). Atualmente, joga no São Paulo Futebol Clube. É a pessoa que mais vestiu a camiseta da Seleção de Futebol: 151 partidas pelo Brasil, ultrapassando o lateral Cafú.

Foto: Shaun Botterill / Getty Images

Ambas as jogadoras, além de todo seu currículo, lutam veementemente pela inclusão de mulheres ao esporte. Marta e Formiga me fizeram refletir exatamente o que acontece na vida de muitas profissionais mulheres: temos que trabalhar o dobro para sermos notadas onde, muitas vezes, a nossa performance supera a masculina, mas na prática ainda não somos escaladas para uma promoção, ou ganhamos menos, exercendo as mesmas funções.

Uma vez, em uma conversa com uma grande amiga, que atua há anos no mercado automobilístico, numa grande empresa global, ela me relatou que já treinou vários de seus pares homens promovidos, onde muitos deles, não entregaram resultados tão consistentes quanto os dela, ou não falam fluentemente várias línguas, como ela.

Outra amiga, grande profissional na área de marketing, também me relatou que seu gestor alega que ela, única mulher de sua equipe, é a profissional mais competente e mais bem avaliada de seu time e ele a utiliza como referência para todos, porém, as promoções e reconhecimento são dadas, na maior parte das vezes, ao time masculino.

Quando não se está na pele de uma mulher, esse fato que citei parece “mimimi”, porém, os dados nos mostram que a desigualdade de gênero no mercado de trabalho ainda se encontra muito presente. De acordo com o relatório Global Gender Gap Report (Relatório Global sobre a Lacuna de Gênero – 2020), do Fórum Econômico Mundial, o Brasil figura na 130ª posição em relação à igualdade salarial entre homens e mulheres que exercem funções semelhantes, em um ranking com 153 países. 

Ou seja, nota-se, tanto nos dados apresentados, quanto no relato das minhas amigas, que as mulheres enfrentam ainda um cenário de desigualdade e discriminação no mercado de trabalho do país.

Porém, estar inserida no mercado de trabalho ainda não é a realidade de muitas mulheres. Segundo o IPEA (2019), 61,6% da população feminina em 2015 estava no mercado de trabalho, com a projeção para atingir 64,3% no ano de 2030. Enquanto isso, a taxa de participação dos homens no mercado de trabalho tende a cair, projetando que em 2030 será de 82,7%.

De acordo com o site Politize, em seu projeto de Equidade, essa disparidade de mulheres no mercado de trabalho ainda ocorre devido ao papel social e cultural imposto às mulheres, as quais ainda são vistas como as principais responsáveis pelos cuidados familiares e pelos trabalhos domésticos.

O TRABALHO QUE “NINGUÉM” ENXERGA, TAMBÉM É TRABALHO

Outra hipótese para menor promoção das mulheres em nossa sociedade pode ser a sobrecarga desses papeis sociais e culturais (cuidados da casa e familiares), adicionado ao profissional, fazendo-as terem menos tempo para participarem de happy hour, fazerem networking, como os homens, já que a divisão de tarefas domésticas e cuidados familiares em nosso país ainda não é igualitária.

Podemos chamar esse “trabalho invisível” de economia do Cuidado (do original, em inglês,care economy), um termo destinado ao trabalho, grande parte das vezes executado por mulheres, de dedicação à sobrevivência, ao bem-estar e/ou à educação de pessoas, assim como à manutenção do meio em que estão inseridas. Em âmbito doméstico, esse trabalho é invisibilizado e não remunerado, e no meio profissional — terceirizado – é mal pago, de acordo com Projeto Draft.

Um dado apontado pelo estudo Time to care — Unpaid and underpaid care work and the global inequality crisis, publicado em janeiro deste ano pela ONG britânica Oxfam, mostra que, em média, no mundo todo, mulheres gastam 4,5 horas do dia fazendo trabalho não remunerado, enquanto homens gastam metade desse tempo.

Além de todos esses fatores, um estudo da pesquisadora economista Laísa Rachter, comparando a presença de mulheres e os salários médios praticados no mercado de trabalho de todo o país desde 1970, com base nos dados do Censo, entre 1970 e 2010, e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), mostra que, em 2020, mulheres ganharam 19% menos que homens, no mesmo cargo, onde em cargos estratégicos, a diferença pode chegar até a mais de 30%.

Como eu sempre falo, de nada adianta a empresa dar flores e parabéns apenas no mês de março, ou lembrar do gênero feminino exclusivamente em outubro rosa, para prevenção do câncer de mama, sendo que esta não estimula a atração, contratação e promoção da diversidade no ambiente corporativo, incentivando assim as mulheres chegarem aos cargos de liderança.

O ABUSO DA TAXA ROSA E A IMPORTÂNCIA DOS PRODUTOS SEM GÊNERO

Além das empresas, também fiquei pensando como nós, mulheres, podemos auxiliar outras mulheres a se desenvolverem e fazermos nossa parte nesse “rolê”, chamado sororidade, empoderando assim outra “manas”:

  • Parar de rivalizar com outras mulheres: isso já começa até nas músicas que você escuta. Será que essas músicas colocam sempre as mulheres umas contra as outras?
  • Divulgue o trabalho de outras mulheres e compre produtos feitos por mulheres;
  • Quando uma mulher sofrer algum tipo de assédio ou violência sexual, nunca ache que a culpa foi dela: a culpa é sempre do abusador, não da roupa, do comportamento, do trabalho ou personalidade da mulher. Recentemente, vimos uma fala da Dayane, que está no elenco de A Fazenda 2021 defendendo Nego do Borel e pintando Duda Reis como a grande vilã da história de abuso que culmina a vida do antigo casal;
  • Acompanhe as competições esportivas femininas, dentre elas, o futebol, skate, vôlei;
  • Contrate mulheres, trabalhe com mulheres, monte equipes diversas: uma vez, uma conhecida minha disse que não contratava mulheres, pois elas engravidavam e ela deixava de bater a meta, por ser gerente de vendas. Escutar aquilo de uma mulher doeu no fundo do meu coração. Porém, como o tempo é um grande professor, hoje essa mesma mulher acabou de ter seu filho e creio que a sua mentalidade mudou, depois de passar por essa experiência;
  • Siga mulheres que te inspiram: eu sigo muitas, como Juliette Freire, Pequena Lo, Luiza Helena Trajano, Paola Carosella, Helena Rizzo, Anitta, Rihanna, Beyoncé, entre outras. Escuto podcasts feito por mulheres, como “Não Inviabilize” e “Mamilos”, assisti aos canais no Youtube desenvolvido por mulheres (Foquinha, Maira Medeiros, Nath Finanças, “Me Poupe”, da Nathália Arcuri, entre outros).

Muitas conquistas femininas, além dos feitos de Marta e Formiga, me fizeram sorrir nesses últimos tempos. Luiza Helena Trajano foi eleita pela revista Time uma das pessoas mais influentes do mundo. Helena Rizzo, jurada do Masterchef, que entrou no lugar de Paola Carosella (sou fã), nunca precisou deixar de ser ela mesma e faltar com educação com os competidores para se impor, conquistando assim nossos corações na competição de gastronomia mais famosa do Brasil: ela sempre mostrou sua humanidade e dedicação em seu respeitoso trabalho no Maní, exaltando a gastronomia brasileira, empregando diversidade e, consequentemente, ganhando vários prêmios e reconhecimento mundial.

Anitta se tornou a primeira artista brasileira a se apresentar no VMA. Rayssa Leal sendo medalhista de prata aos 13 anos nas Olimpíadas de Tóquio e Rebeca Andrade trazendo medalhas na ginástica artística para nosso país, no mesmo evento.

RAYSSA LEAL, ATLETAS BRASILEIRAS, GERAÇÃO Z E NOSSA PARTICIPAÇÃO NO EMPODERAMENTO FEMININO

Ter pessoas como Luiza Helena Trajano, Helena Rizzo, Formiga e Marta em evidência em nossos meios de comunicação é absolutamente necessário. Elas fazem com que nós, mulheres não tenhamos medo de conquistar nosso espaço, e, ao mesmo tempo, nos mostram que não precisamos perder nossa essência ou deixarmos de ser nós mesmas para conquistar o que queremos.

A caminhada ainda é longa, mas juntas somos muito mais fortes. Que você consiga ver o seu potencial e, assim como a Marta, continue fazendo seu melhor: as pessoas estão vendo. Sua hora vai chegar.

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