O TRABALHO QUE “NINGUÉM” ENXERGA, TAMBÉM É TRABALHO

QUANTAS VEZES, NO ALMOÇO EM FAMÍLIA, AS MULHERES FORAM AS ÚLTIMAS A SENTAREM PARA COMER?
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03.07.2021

Ailen Possamay

Na sociedade em que vivemos, o trabalho doméstico sempre foi considerado dever da mulher. Mulheres mães, principalmente, têm rotinas sobrecarregadas, e o sistema em que estamos inseridas, reforça constantemente que isso é algo normal, quando na verdade é apenas mais uma forma de dominar nossos corpos. Uma frase bem conhecida da filósofa feminista Silvia Federici em seu livro “Wages for Housework” (Salários pelo trabalho doméstico), desde 1975 sintetiza bem essa problemática: “O que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago”.

COZINHAR – ATO DE AFETO E AUTOCUIDADO

Enxergar nas nossas mães, avós, tias e esposas a responsabilidade de organizar e manter a limpeza da casa há muito tempo é uma visão que faz parte de quase todas as famílias, sendo ainda mais comum aos homens, que são beneficiados por isso. Quantas vezes, no almoço em família, por exemplo, as mulheres foram às últimas a se arrumarem ou sentarem para comer? Quantas vezes as mães já deixaram de cuidar de si porque o trabalho doméstico tomou a maior parte do seu tempo (que em muitos casos deveria ser seu horário livre, suas horas de descanso)?

Desde criança ouço mulheres comentando o quanto o serviço doméstico é ingrato. Um trabalho pesado e cansativo que não é somente não remunerado, é invisível para alguns. A maneira como há muitos anos a nossa sociedade foi construindo a ideia de casamento, família e posições que cada um ocupa, criou uma interpretação de que essas atividades são naturais e muito comuns às mulheres. Um conceito ainda mais normalizado pelo machismo da nossa sociedade, que prega que o lugar da mulher deve ser dentro de casa, muitas vezes sem autonomia financeira, até mesmo para ter nitidamente o controle e a dominação dos nossos corpos. E a visão romantizada de que o trabalho doméstico é uma forma de demonstrar amor e cuidado, só agrava ainda mais a situação.

A pandemia deixou essa problemática bem mais visível para muitas mulheres. Lembro que nos primeiros meses ouvi de amigas e conhecidas o quanto elas estavam sobrecarregadas, e como o trabalho doméstico consumia muito tempo delas. Acredito que essa seja uma percepção muito importante, porque como as mulheres das gerações mais novas normalmente trabalham fora de casa, muitas vezes achamos que nos libertamos desse trabalho doméstico, mas isso ainda não aconteceu, na realidade nós estamos fazendo os dois.

No livro “O ponto zero da revolução”, Silvia Federici aborda muito bem diversas questões que cercam esse tema, apontando como o capitalismo e o machismo tiveram uma grande influência nisso. A filósofa faz uma relação entre o trabalho doméstico não remunerado e o papel que as mulheres ocupam no mercado de trabalho: “A ausência de um salário para o trabalho que realizamos em casa é também a causa primária para a nossa fraqueza no mercado de trabalho assalariado. Os empregadores sabem que estamos acostumadas a trabalhar por nada e que estamos tão desesperadas para ganhar um dinheiro próprio que eles podem nos ter a um preço baixo. Desde que ‘feminino’ se tornou sinônimo de ‘dona de casa’, nós carregamos para qualquer lugar essa identidade e as ‘habilidades domésticas’ que adquirimos ao nascer. É por isso que as possibilidades de emprego para mulheres são tão frequentemente uma extensão do trabalho doméstico, e o nosso caminho ao assalariamento muitas vezes nos leva a mais trabalho doméstico”.

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