APÓS 53 ANOS, “THE BOYS IN THE BAND – OS GAROTOS DA BANDA” REESTREIA EM SÃO PAULO, EM MEIO A UMA RESSACA CONSERVADORA

“A IMPORTÂNCIA DE MONTAR O ESPETÁCULO HOJE É ASSIMILAR E COMPREENDER O QUE CONSQUISTAMOS NESSES ÚLTIMOS 50 ANOS”, DIZ RICARDO GRASSON
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31.10.2023

Rafael Cusato

Considerada a primeira peça de temática abertamente gay, “The Boys in the Band – Os Garotos da Banda” (1968), de Matt Crowley, ganha nova montagem no Brasil a partir de 31 de outubro, no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. A primeira versão brasileira, que estreou em São Paulo em 1970, no Teatro Cacilda Becker, foi produzida por Eva Wilma e John Herbert – um casal heterossexual. Com tradução de Millôr Fernandes, “Os Rapazes da Banda”, tinha um elenco com nomes como Raul Cortez, Walmor Chagas, Paulo César Pereio, Otávio Augusto, Gésio Amadeu, Dennis Carvalho e o próprio John Herbert. Apesar de ter sido um sucesso, no auge da ditadura militar, o espetáculo sofreu com a crítica conservadora e a censura por abordar relacionamentos entre homens em plena revolução sexual na era pré-AIDS.

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53 anos depois, “The Boys in the Band – Os Garotos da Banda” encontra um Brasil na ressaca de uma onda conservadora, buscando reconstruir suas bases sociais e culturais. Com produção da ZR Produções e direção de Ricardo Grasson, o elenco conta com Tiago Barbosa, Bruno Narchi, Caio Evangelista, Caio Paduan, Heber Gutierrez, Heitor Garcia, Júlio Oliveira, Leonardo Miggiorin, Mateus Ribeiro e Otávio Martins.

“A importância de montar o espetáculo hoje é assimilar e compreender o que conquistamos nesses últimos cinqüenta anos. Conquistas dentro do movimento LGBTQIA+, do movimento negro, do movimento feminista, da geopolítica no mundo. É analisar no que avançamos e no que ficamos estagnados. Por este motivo resolvi recortar o espetáculo nos anos 1960 e não atualizá-lo”, explica Grasson.

A história se passa em New York e gira em torno de um grupo de amigos gays que se reúne para celebrar o aniversário de um deles. A peça aborda questões de identidade, sexualidade, relacionamentos e autoaceitação. À medida que a festa avança e o álcool sobe, conflitos e ressentimentos reprimidos entre os personagens vêm à tona durante um venenoso jogo que leva a revelações pessoais e momentos emocionais tensos e intensos.

A peça foi destaque por sua representação aberta da vida gay na época em que foi escrita, quando a aceitação da homossexualidade era limitada e as lutas pelos direitos LGBTQIA+ ainda engatinhavam. Idealizada apenas um ano antes da Revolta de Stonewall – um momento representativo para a comunidade gay e sua luta por direitos básicos, ela oferece um olhar franco e, muitas vezes, cruel e doloroso sobre a vida desses personagens e como eles enfrentam questões de autenticidade e aceitação em uma sociedade reacionária e violenta, que marginaliza tudo aquilo que não atende aos padrões estabelecidos.

Para Tony Kushner, dramaturgo responsável por “Angels in America” e indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por “Munique” (Dir: Steven Spielberg, 2005), “The Boys in the Band” representa justamente o momento de ruptura para a humanização dos homossexuais. Em introdução para a edição impressa de 2018, Kushner explica que “há momentos em que os padrões se quebram, comportamentos mudam, e seus personagens conseguem articular um comprometimento para mudarem sua postura”. Segundo ele, a peça captura o que há de desconcertante, estranho e embaraçoso nesses momentos pré-explosão rumo à libertação.

“The Boys in the Band” é considerada uma obra importante na história do teatro LGBTQIA+ e teve um impacto significativo na representação e discussão da comunidade gay. A estreia americana, em 1968, chocou o público convencional por mostrar abertamente a vida cotidiana dos homossexuais e teve 1.001 apresentações. O título da peça é uma referência ao filme “Nasce uma Estrela”, de 1954, estrelado por Judy Garland, um ícone para a comunidade gay dos Estados Unidos. No filme, James Mason diz que a personagem de Judy “está cantando para ela mesma e para os rapazes da banda”, uma gíria daquele tempo para se referir aos gays.

“SER NEGRO E GAY NO BRASIL É SER HUMILHADO, PISOTEADO E ASSASSINADO”

Para o crítico teatral Peter Filichia, a produção original da peça ajudou a inspirar os protestos de Stonewall, em 1969, e desencadeou o movimento pelos direitos dos homossexuais. Não poderia ser diferente: no dia da Revolta de Stonewall, “The Boys in the Band” estava em cartaz num teatro próximo ao local do protesto. Ao fugir da repressão policial, os manifestantes se abrigaram no teatro que mostrava ao mundo as angústias e dilemas de ser um homem gay num contexto de opressão conservadora.

“The Boys in the Band” foi adaptada para o cinema em duas ocasiões, sempre com grande sucesso de público e crítica, e também teve várias produções teatrais ao longo dos anos ao redor do mundo. A primeira versão foi adaptada para o cinema pelo próprio Matt Crowley e dirigida por William Friedkin, vencedor do Oscar de 1973 pelo clássico “O Exorcista”.

Em 2020, dois anos depois de ter sido remontada na Broadway e vencido um prêmio Tony na categoria de Melhor Revival de peça de teatro,”The Boys in the Band” ganhou uma nova filmagem com direção de Joe Mantello e produção de Ryan Murphy, responsável por sucessos como “Glee”, “Pose” e “American Horror Story”. Esta nova versão também é considerada histórica por ser a primeira montagem com elenco cem por cento gay. O filme foi um dos maiores sucessos da Netflix naquele ano e mostra que a história continua a ser uma obra relevante e influente na cultura LGBTQIA+.

SERVIÇO

Espetáculo “The Boys in the Band – os Garotos da Banda”

Onde: Teatro Procópio Ferreira

Endereço: Rua Augusta, 2823, Jardins – São Paulo

Quando: 31 de outubro a 22 de dezembro

Horário: terça e quarta às 21h

Quanto: R$ 120 (inteira) R$ 60 (meia)

Classificação etária: 16 anos

Duração: 90 minutos

Informações: (11) 3083-4475 ou através do site

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