“Cidades que Abraçam Infâncias – O que é possível aprender com territórios que incluíram crianças em seus planejamentos urbanos” partiu de uma inquietação de sua autora, a jornalista Regina Cintra: como a dinâmica das cidades contemporâneas, que excluem e desrespeitam sistematicamente as necessidades e ritmos dos mais novos, impacta a qualidade de vida de quem está no entorno?
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Bebês e crianças não saem sozinhas pela cidade e a adulta responsável que as acompanha, mulher na enorme maioria das vezes, é igualmente impactada pelos desenhos das ruas, tempos semafóricos (segundos para pedestre atravessar), ausência de um mobiliário urbano confortável (como bancos e coberturas adequadas nos pontos de espera de transporte), falta de traçados que protejam quem está a pé. A opção rodoviarista, traçada décadas atrás, é outro dado que compõe a realidade hostil dos territórios urbanos.

Os primeiros anos de vida são cruciais para um desenvolvimento saudável: é o momento em que o número de conexões neurais tem sua melhor performance, que o cérebro tem enorme plasticidade e que as interações, vivências e aprendizados se somam e formam uma estrutura sólida. Se há trauma ou privação, a arquitetura cerebral fica comprometida. E é nesse início da vida que acontecem as primeiras experiências das crianças com a cidade onde vive – inauguradas muitas vezes em seu próprio bairro.
Olhando para as cidades, vale o registro de que 87% da população brasileira vive em áreas urbanas. No mundo, esse percentual é de 56%. E é nos chãos dos territórios que a vida acontece, e onde as desigualdades sociais, tão marcantes no Brasil, se consolidam. A infraestrutura da rua de casa, os tempos de deslocamento, a qualidade das calçadas e a ausência de praças próximas transcorrem na vida cotidiana, assim como a inalação de elementos tóxicos da poluição, que penetra e agride mais fortemente os pulmões de quem está em desenvolvimento.
“Cidades que Abraçam Infâncias”, nascido da pesquisa de mestrado da autora, reúne oito entrevistas, além de ilustrações de Erika Teixeira e 70 fotos. Os entrevistados são profissionais que estão na ponta dessa temática, seja com olhar voltado ao planejamento urbano, sejam carreiras dedicadas às infâncias e suas particularidades.

Foram entrevistadas as/os gestoras/es públicas Teresa Surita (Boa Vista), Luciana Lima e Murilo Cavalcanti (Recife), Marcelo Peroni (Jundiaí), além de Claudia Vidigal (representante da Fundação Van Leer no Brasil), Rodrigo Mindlin Loeb (arquiteto urbanista, autor de “Cidade, Gênero e Infância”), Vital Didonet (mestre em Educação, assessor para assuntos de políticas públicas para Rede Nacional Primeira Infância) e Santiago Uribe (arquiteto de Medellín, um dos responsáveis pela transformação urbana na cidade colombiana).
A pesquisadora selecionou quatro cidades e foi a campo: Jundiaí (cidade rica com alto IDH, no interior paulista), Recife (a capital pernambucana com alto índice de famílias vivendo em extrema vulnerabilidade e com uma topografia desafiadora), Boa Vista (considerada “a capital da primeira infância”) e Medellín (um caso de sucesso internacional, promovido ao longo de duas décadas, diferentes governos e com enorme impacto positivo que se tornou perene).
“Cidades que Abraçam Infâncias”, em formato livro, nasceu com um objetivo claro: sem linguagem técnica, nem jargão incompreensível para quem é leigo no universo de cidades, planejamento urbano ou pedagogia e literatura focada em desenvolvimento infantil, foi escrito para ser compreendido. A ideia de Regina Cintra em pesquisar e difundir experiências bem-sucedidas sempre foi o norte.
A conclusão é de que é possível fazer diferente, criar espaços mais calmos e acolhedores. Há experiências interessantes espalhadas pelo Brasil, a baixo e médio custo, com realização possível em um curto espaço de tempo. “Não é suficiente oferecer serviços se o chegar é tão exaustivo à parte da população. A gestão tem que atuar para remover obstáculos, facilitar o dia a dia, proporcionar efetivamente o acesso. A integração dos equipamentos e proximidade entre eles pode ser um fator decisivo para o exercício de certos direitos”, diz. 220 páginas. R$ 275,90.


