“XINGU: CONTATOS” ABORDA A HISTÓRIA DAS IMAGENS DO TERRITÓRIO INDÍGENA COM ÊNFASE NO AUDIOVISUAL CONTEMPORÂNEO

A MOSTRA REÚNE 200 ITENS, INCLUINDO FILMES E OBRAS DE ARTISTAS INDÍGENAS, PRODUZIDOS ESPECIALMENTE PARA A EXPOSIÇÃO NO IMS
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04.11.2022

Takumã Kuikuro

Primeiro grande território indígena demarcado no Brasil, em 1961, o Xingu é a casa de sociedades tradicionais que enfrentam há séculos diversas formas de intervenção e violência e inspiram a luta por direitos dos povos originários. Ainda alvo de disputas e ameaças, o território, localizado no estado do Mato Grosso, é habitado atualmente por mais de 6 mil indígenas, de 16 etnias. 

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Essa trajetória de lutas é revisitada na exposição “Xingu: contatos”, que o Instituto Moreira Salles apresenta, em sua sede de São Paulo, a partir de 5 de novembro. A equipe de curadoria é formada pelo cineasta Takumã Kuikuro, diretor de documentários como “As hiper mulheres” (2011), pelo jornalista Guilherme Freitas, editor-assistente da serrote, revista de ensaios do IMS, e pela assistente de curadoria Marina Frúgoli

No sábado (5), às 17h, os curadores e artistas da mostra participam de uma roda de conversa com o público. Ainda como parte da programação, no domingo (6), às 11h, haverá uma apresentação de narrativas orais com o pesquisador Yamalui Kuikuro, e, às 17h, novamente um bate-papo com os curadores e artistas da exposição.

A mostra, cuja entrada é gratuita, apresenta múltiplas narrativas e olhares em torno do território, tendo como destaque a produção audiovisual indígena contemporânea, que tem no Xingu um de seus principais polos. O conjunto inclui seis curtas-metragens, feitos especialmente para a exposição, de autoria de Divino TserewahúKamatxi Ikpeng, Kamikia KisêdjêKujãesage Kaiabi, Piratá Waurá e do Coletivo Kuikuro de Cinema.  

Frame do curta “A Câmera é a Flecha” – 2022. Coletivo Kuikuro de Cinema

A exposição traz ainda um trabalho inédito do artista Denilson Baniwa, fotografias produzidas pelos comunicadores indígenas da Rede Xingu +, e um mural, com grafismos alto-xinguanos, criado pelo artista Wally Amaru na empena de um prédio na rua da Consolação. 

Também são exibidos imagens, reportagens e outros documentos produzidos no Xingu por não indígenas desde o final do século 19. O conjunto inclui desde registros de viajantes europeus, passando pela documentação de expedições do Estado brasileiro até a cobertura da imprensa durante a campanha pela demarcação do Parque Indígena do Xingu, decretada em 1961. Na mostra, essas imagens são confrontadas pelas produções de artistas e comunicadores indígenas, num processo de diálogo, contraste e elaboração de novas perspectivas. 

Fruto de dois anos de pesquisa, a seleção apresenta cerca de 200 itens. Os materiais provêm do acervo de diferentes instituições, como o próprio IMS, o Instituto Socioambiental (ISA), o Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia da PUC Goiás, o Museu do Índio e a ONG Vídeo nas Aldeias, entre outras. As imagens de acervo passaram por um processo de requalificação, conduzido em diálogo com pesquisadores e lideranças indígenas, para identificar pessoas, locais e situações. 

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Segundo Takumã Kuikuro, as narrativas em torno do Xingu sofreram muitos apagamentos, sendo preciso reforçar o protagonismo das lideranças indígenas na luta pela demarcação do parque e na diplomacia com os brancos. A exposição parte do objetivo de evidenciar esse ativismo e também de destacar a importância do audiovisual no território atualmente, como aponta o cocurador: “Hoje nós somos protagonistas da nossa história. Antes não conhecíamos o audiovisual, agora conhecemos. Somos donos da nossa imagem e levamos as lutas dos povos do Xingu para museus, festivais, cinemas, redes sociais e exposições. Não existiu só um contato entre indígenas e não indígenas. O contato acontece o tempo todo, hoje e amanhã, e acontece também através do audiovisual. Queremos contar nossa história para que os não indígenas possam reconhecer e ensinar aos seus filhos o protagonismo dos povos indígenas do Xingu e de todo o Brasil”.

O cocurador Guilherme Freitas também destaca que, para evidenciar essas novas narrativas, é preciso reavaliar a forma como os acervos das instituições são catalogados e exibidos. “Parte da história do Xingu está registrada em fotografias sob a guarda do Instituto Moreira Salles. A exposição é o marco inicial de um processo de requalificação desse conjunto de imagens, com a colaboração de pesquisadores e lideranças indígenas, por meio da identificação de pessoas, locais e situações retratadas. Buscamos, assim, colocar o acervo a serviço da reflexão crítica sobre a representação dos povos originários na história do país e do desenvolvimento de novas formas de autorrepresentação indígena”, afirma. 

Foto: Beto Ricardo / Acervo Instituto Socioambiental

A exposição ocupa dois andares do IMS. No primeiro, estão os seis curta-metragens comissionados a artistas e comunicadores indígenas. Com ênfase na linguagem documental, os curtas tratam de questões como a preservação das culturas, o desmatamento e a luta por direitos.
 
O cineasta Piratá Waurá, por exemplo, apresenta um curta sobre a gruta de Kamukuwaká, considerada sagrada por seu povo, que ficou de fora do território demarcado. Os entrevistados no vídeo denunciam as ações de desmatamento e vandalismo que acontecem no local, reforçando a importância de preservá-lo. Já em Comunicadores da floresta, Kamikia Kisêdjê reúne imagens aéreas que mostram desde as florestas e aldeias do Xingu até as queimadas, o desmatamento e as plantações de soja que avançam sobre o território indígena no local. A comunicadora Kujãesage Kaiabi registra a devolução ao seu povo de imagens antigas de uma liderança histórica, Prepori Kaiabi, e mostra o impacto dessas memórias no dia a dia da aldeia.

Pirakumã Yawalapiti em protesto no Acampamento Terra Livre (ATL), Brasília – 2014. Foto: André D’Elia

A inserção do audiovisual nas comunidades indígenas, tanto como instrumento de preservação de saberes e tradições quanto como ferramenta de autorrepresentação, é um dos temas centrais dos filmes. Em “Kamatxi” cineasta, Kamatxi Ikpeng mostra a importância das ferramentas audiovisuais para as lutas atuais dos Ikpeng. Em “A câmera é a flecha”Takumã Kuikuro e o Coletivo Kuikuro de Cinema repassam duas décadas de atuação nas aldeias de todo o Xingu e em festivais ao redor do mundo. Em “Somos Cineastas”Divino Tserewahú reúne depoimentos sobre o papel do audiovisual na cultura Xavante. Um dos pioneiros do cinema indígena no Brasil, Divino participou da primeira oficina do vídeo nas Aldeias no Xingu, em 1997. 

O primeiro andar apresenta ainda dois itens de arquivo que ilustram os caminhos do audiovisual na história do Xingu. Um curta-metragem produzido pelos alunos da primeira grande oficina do projeto Vídeo nas Aldeias, realizada em 1997 no Posto Diauarum, no Território Indígena do Xingu. E uma seleção do acervo pessoal de Pirakumã Yawalapiti, liderança histórica que tinha o hábito de filmar assembleias, rituais e festas desde os anos 1990. 

No segundo andar da exposição, o público encontra uma perspectiva histórica do território. São apresentadas desde as primeiras fotografias feitas na região, durante a expedição do etnólogo alemão Karl von den Steinen na década de 1880, passando pela documentação realizadas pelo Estado brasileiro na primeira metade do século 20, com a Comissão Rondon e o Serviço de Proteção ao Índio, até chegar à cobertura da imprensa da Expedição Roncador-Xingu, sobretudo pela revista O Cruzeiro, com os fotógrafos Jean Manzon, José Medeiros e Henri Ballot – os arquivos de Medeiros e Ballot estão sob a guarda do IMS. 

Watatakalu Yawalapiti – 2019. Foto: Sitah

Neste núcleo, as imagens produzidas pelos não indígenas são intercaladas e interrogadas por filmes e fotografias de artistas indígenas. O artista Denilson Baniwa assina um trabalho criado a partir das reportagens da revista O Cruzeiroquestionando a representação das culturas indígenas na imprensa brasileira. Uma narrativa tradicional Kuikuro traz o ponto de vista dos xinguanos sobre a chegada dos não indígenas à região. 

São exibidos ainda fotos e documentos que registram a presença do cacique Raoni Metyktire e de outras lideranças xinguanas durante os debates da Constituinte, em 1987 e 1988. Os materiais apresentados reforçam como o Xingu se tornou um marco e símbolo da resistência indígena, servindo como referencial para outras demarcações. 

Para evidenciar os protagonistas da história do território, em uma das seções da mostra, haverá uma série de retratos de lideranças que tiveram uma importante atuação na defesa do território, como Narru Kuikuro, Prepori Kaiabi Aritana Yawalapiti. Junto às imagens dessas figuras históricas, serão exibidos retratos de lideranças e articuladoras femininas atuais, como Mapulu KamayuráWatatakalu Yawalapiti e Sangain Kalapalo

Outro destaque são os registros da vida dos povos do Xingu no passado e no presente. Há, por exemplo, imagens inéditas de dois fotógrafos consagrados que documentaram a região extensamente, Henri Ballot e Maureen Bisilliat, cujo arquivo também está sob a guarda do IMS. Neste andar, também estão fotografias feitas por Kamikia Kisêdjê e por comunicadores da Rede Xingu +, que mostram o cotidiano das aldeias e também a presença dos povos xinguanos em atos políticos e manifestações, como a edição deste ano do Acampamento Terra Livre, em Brasília. 

Em cartaz até 9 de abril de 2023, a mostra contará com uma série de atividades paralelas, que serão divulgadas ao longo do período expositivo. Ao visitar a exposição, o público poderá conhecer mais sobre a história de lutas e resistências dos povos xinguanos, como enfatiza o escritor e ativista Ailton Krenak, em entrevista a ser publicada no catálogo da mostra: “O Parque Indígena do Xingu é inspirado na ideia de conservação, e ele inspira muito. Inspira a luta indígena no sentido da conservação da biodiversidade e na convivência da diversidade de povos dentro de um mesmo território. Ele é um imenso repertório de experiências positivas que inspira as lutas dos indígenas até hoje”.

SERVIÇO

Exposição “Xingu: contatos”

Onde: Instituto Moreira Sales

Endereço: Avenida Paulista, 2424, Consolação – São Paulo

Quando: 5 de novembro de 2022 a 9 de abril de 2023

Horário: terça a domingo e feriados das 10h às 20h

Quanto: entrada gratuita

Informações: (11) 2842-9120 ou através do site
 

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