Chega às plataformas uma nova versão de Juliane Gamboa para “Coragem Mulher”. Composição de Ivan Lins e Vitor Martins lançada originalmente em 1980. Desde o lançamento de “Jazzwoman”, em 2024, a cantora e compositora vem ampliando o alcance de sua arte. Trafegando com segurança por um repertório plural em seu álbum de estreia, a artista foi indicada ao Latin Grammy na categoria Artista Revelação em 2025, concorrendo com indicados de países de língua espanhola.
“Coragem Mulher” se conecta diretamente à trajetória de Juliane Gamboa, suas vivências e convicções como mulher e artista negra. Partiu de João Lins, filho do compositor, a sugestão de trazer à luz a canção que homenageia Marli Pereira dos Santos, a Marli “Coragem”, que se tornou símbolo da resistência após denunciar 12 policiais militares pelo assassinato de seu irmão, Paulo Pereira Soares, em 1980. Treze anos depois, o filho de Marli também seria morto pela polícia.

“Estava procurando uma música inédita para o meu próximo disco e fiquei muito tocada, muito mexida com toda a história, além de impressionada por nunca ter ouvido falar no nome de Marli Pereira Soares, mesmo estando há alguns anos dentro do movimento negro. Tudo o que essa música simboliza tem muito a ver com quem eu sou, com a história das mulheres da minha família”, define Juliane.
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Ivan Lins conta que a ideia de homenagear Marli com uma canção partiu de Vitor Martins, depois que os dois souberam do caso pela imprensa: “Nunca tínhamos visto uma mulher peitar a Polícia Militar do Rio de Janeiro, que já tinha fama de muito violenta. Os policiais ameaçaram matar a ela e a todos da família, caso falassem alguma coisa, mas a Marli não se intimidou: foi ao comandante, no quartel, e os denunciou. Botaram as tropas em formação e ela foi apontando. A gente se comoveu muito com a história dela e achávamos que a música poderia também ajudar a protegê-la. Imagino que hoje ela tenha uns 70 anos, viva em outro lugar e com outro nome”.
Segundo Juliane, Ivan Lins sempre comentou que gostaria de ouvir “Coragem Mulher” interpretada por uma mulher. “Esse lindo encontro com o Ivan, 46 anos depois, vai contar essa história de outra maneira, mas, ao mesmo tempo, nossa realidade ainda é muito parecida. Eu espero que essa música toque o coração de todos e traga a reflexão de que muito ainda precisa ser feito. De que a gente precisa ter muita coragem”, reflete Juliane.
Ivan Lins endossa: “Tenho muita esperança de que a Juliane consiga, através dessa canção, mexer com as pessoas. Politicamente é necessário, também. Tudo é política em arte, e é importante que as novas gerações se comprometam a melhorar o Brasil no sentido humanístico. A intolerância racial, social, religiosa, cresce no mundo todo. Canções como essa são cada vez mais necessárias”.
Ressignificada, a canção “Coragem Mulher” captura ainda a emoção do encontro da artista com o compositor, cuja obra Juliane conheceu através das intérpretes que o gravaram, como Elis Regina: “Foi muito generoso, da parte do Ivan, vir gravar, trocar ideias. Gosto de fazer música com sinceridade, então, me senti em casa, muito abraçada”, conclui.


