Há um movimento cada vez mais consistente reposicionando a música instrumental brasileira fora dos grandes centros e das fórmulas tradicionais do gênero. É nesse território que o guitarrista, compositor e arranjador Renato Alves apresenta “Casa Viva”, terceiro álbum autoral de sua carreira.
Natural de Marília, interior de São Paulo, o músico, formado pelo Conservatório de Tatuí, contemplado com bolsa da Latin Grammy Foundation e parceiro de artistas como Wagner Tiso, Arismar do Espírito Santo, Cuca Teixeira e Bocato, constrói um trabalho alegre e energético, que aproxima a sofisticação do jazz de uma linguagem sensível, com memória afetiva e aberta ao diálogo com as sonoridades brasileiras e latinas.
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Embora instrumental, o álbum recentemente lançado não tem a pretensão de falar apenas com músicos ou com o nicho específico de apreciadores do estilo, mas traz elementos do jazz contemporâneo que se misturam com os da música brasileira, latina e também com sonoridades mais modernas, urbanas e atuais, como o groove, o rock progressivo e outras linguagens.
“Mais do que fazer um disco ‘complexo’, eu queria fazer um trabalho que tivesse a minha identidade musical, liberdade e profundidade, sem perder a conexão com o ouvinte. Tive uma preocupação muito grande com a construção melódica, com a atmosfera e com a narrativa do álbum”, afirma Renato Alves.

As referências que atravessam “Casa Viva” ajudam a compreender essa identidade musical do artista. Se a linguagem jazzística dialoga com nomes como Wes Montgomery, George Benson, Joe Pass e Pat Martino, a marca brasileira se ancora especialmente em Hélio Delmiro, Toninho Horta, Milton Nascimento, Guinga e Tom Jobim. Renato também aponta influências vindas de Miles Davis, Hermeto Pascoal e Igor Stravinsky. “É importante saber da história da música e de tudo que já foi feito, daí é só misturar com a espontaneidade”, resume o guitarrista.
O processo criativo também revela um momento particularmente fluido da trajetória de Renato Alves. As oito faixas foram compostas entre o fim de 2024 e o início de 2025, já concebidas dentro da ordem e da narrativa definitiva do disco. Gravado de maneira fragmentada, instrumento por instrumento, o trabalho reúne músicos com quem Renato mantém vínculos artísticos e afetivos profundos: Fernando Amaro (bateria), Gabriel Gaiardo (teclados) e Adauto Dias (contrabaixo elétrico), além das participações especiais de Jorge Doudement (sax tenor), Carrapicho Rangel (bandolim) e Eduardo Cubano (percussões). A mixagem e a masterização ficaram por conta de Zé Victor Torelli, que atualmente mora em Berlim, na Alemanha, e atua em grandes estúdios pelo país.
Também o título da obra revela uma parte mais íntima e afetiva da criação do projeto. “Casa Viva” era o nome da loja de material de construção do pai do músico, falecido há cinco anos, e transforma-se aqui em memória afetiva e metáfora sonora. “’Casa’ me passa uma ideia de conforto e os músicos que participam do disco são todos amigos muito próximos”, explica Renato. “E ‘viva’ porque eu sinto que essas músicas realmente ganham vida quando são tocadas”, completa.
Essa organicidade aparece também nos títulos das composições: “Queda Livre” nasce da sensação de risco presente no improviso; “Café com Pat” brinca com referências a Pat Metheny; e “Cardeal, 690” revisita o período em que viveu em São Paulo ao lado do baixista Adauto Dias, fase que define como “a verdadeira faculdade de música”.
Falando em aprendizado, paralelamente à atuação artística, Renato Alves desenvolve um trabalho contínuo de formação musical, tanto presencialmente quanto no ambiente digital, onde soma mais de 90 mil seguidores. Professor há cerca de duas décadas, já atuou em instituições como o Projeto Guri e, atualmente, mantém cursos online, workshops e um canal dedicado ao ensino de jazz, improvisação, harmonia e música brasileira. Essa dimensão pedagógica também atravessa o álbum e seus desdobramentos futuros, que incluem shows, um registro audiovisual ao vivo e o lançamento de um songbook didático.
“Espero que quem ouça o disco possa sentir alguma coisa, ainda que não entenda tecnicamente o que está acontecendo. Também convido as pessoas a irem junto comigo explorar mais o jazz, a música brasileira e essa mistura de ritmos e influências que fazem parte da nossa identidade musical como brasileiros”, finaliza.


