O projeto teatral que une os espetáculos “Nada é suficiente” e “Comunhão” apresenta uma proposta artística de fôlego ao encenar duas obras do renomado dramaturgo canadense Daniel MacIvor em uma mesma temporada. A iniciativa explora a densidade da dramaturgia contemporânea sob a direção de Pedro Bricio e Susana Ribeiro.
O elenco é composto pelas atrizes Lúcia Bronstein, Luisa Micheletti e Magali Biff, que conduzem as narrativas intercaladas ao longo da programação. A estreia está confirmada para o dia 17 de abril, ocasião em que ambas as peças serão apresentadas em sequência, separadas por um intervalo de 15 minutos, proporcionando ao público uma experiência imersiva e contínua da obra de MacIvor.
Ambos os espetáculos falam sobre finitude e a noção de que o indivíduo se constitui a partir de suas relações. Pensando neste conceito, de que somos o que somos a partir das relações que estabelecemos e dos papéis que assumimos nelas, a ideia de termos duas peças intercaladas numa mesma temporada aprofunda a pesquisa e o efeito desta coreografia de pontos de vista. Como se fôssemos uma pessoa diferente com cada pessoa com quem nos relacionamos (contracenamos).
“A finitude aparece mais como um horizonte do que como o drama central. O foco real, porém, é o encontro. As duas peças investigam como o ser humano se inventa, se potencializa e se descobre a partir do outro”, explica Pedro Brício. “Daniel MacIvor tem essa percepção rara do cotidiano como algo transcendente. Ele lida com o contraste entre o prosaico e o metafísico, mostrando que o extraordinário está aqui, no dia a dia, e não em um ‘além’”.
Para as idealizadoras, a escolha dos textos não foi por acaso, mas fruto de um desejo de investigar a alteridade. “As peças falam sobre a possibilidade de nos transformarmos a partir dos encontros. Uma vez que deixamos o outro nos afetar, não seremos os mesmos”, observa Luisa Micheletti. “Elas abordam nossas limitações e o quanto de fato conseguimos enxergar o outro como um legítimo outro. São obras profundamente humanas, com personagens de muitas camadas”.

Lucia Bronstein ressalta que o processo de escolha das obras atravessou caminhos quase misteriosos, surgindo como o encaixe perfeito para o que a equipe sentia. Para ela, encenar essas peças em um contexto global de distanciamento é um gesto de resistência, buscando a “compaixão verdadeira” por meio do humor e da profundidade que o autor propõe. Essa conexão revela uma montagem que espelha as próprias relações da equipe criativa, inclusive no protagonismo feminino.
A encenação de “Nada é Suficiente” e “Comunhão” é o resultado de uma interlocução artística entre Pedro Brício e Susana Ribeiro, que buscam uma unidade estética mesmo diante de obras com temperaturas opostas. Brício explica que as peças possuem atmosferas distintas: “’Comunhão’ é um drama denso, enquanto ‘Nada é Suficiente’tem uma leveza ‘pop’, com banda de rock e humor. O que as une é o minimalismo típico do MacIvor, que deixa espaço para a imaginação e para a palavra. Dirigir em parceria com a Susana tem sido um exercício de somar experiências e priorizar o trabalho do ator, valorizando a força do texto”.

Essa pesquisa conjunta é complementada pelo olhar de Susana, que traz sua experiência de 40 anos nos palcos para a condução do elenco: “Para mim, a direção é uma grande escuta do jogo entre as atrizes. Eu me considero uma ‘bordadeira’ na cena: gosto de costurar os detalhes e as camadas do não dito para que o elenco se sinta potente. A cena ganha força pela visão de quem conhece o ‘estar dentro’ do palco”.
A dinâmica da dupla envolveu uma divisão produtiva inicial, com Brício focando em um texto no Rio de Janeiro e Susana em outro, em São Paulo, culminando em uma fase final de supervisão mútua. Segundo a diretora, esse processo permite que um sirva de espelho para o outro, trazendo um olhar externo que revela nuances e ajustes finos, garantindo que as produções funcionem como “peças irmãs” dentro da mesma temporada.
A produção adotou um universo estético minimalista e compartilhado para conectar as duas peças, priorizando o trabalho das atrizes e a força do texto. O cenário de André Cortez serve como uma base versátil que atende aos dois espetáculos, enquanto os figurinos de Simone Mina evitam o realismo, focando em pequenos detalhes que marcam as mudanças das personagens. A luz de Aline Santini é o elemento narrativo central para reforçar a ideia de transcendência no cotidiano. O diretor explica o simbolismo visual: “A iluminação traduz a ‘iluminação’ dos encontros humanos. Em ‘Comunhão’ a luz atravessa as frestas de uma porta; em ‘Nada é Suficiente’, ela cria um momento de epifania dentro de uma caixa de luz”.
Um detalhe relevante da produção é que ambos os espetáculos passam no Teste de Bechdel, critério criado nos anos 80 pela cartunista Alison Bechdel para medir a representatividade feminina na ficção. Para as idealizadoras, é um diferencial importante colocar em cena obras onde mulheres com nome próprio dialogam sobre temas que transcendem as figuras masculinas, focando em suas próprias existências e transformações. A diretora Susana Ribeiro se declara entusiasta do protagonismo feminino.
“As mulheres precisam, cada vez mais, ocupar espaços de decisão. O mundo atual pede essa alternância de forças e uma sensibilidade maior para o coletivo e para as diferenças. Mulheres juntas são muito poderosas; existe um movimento de sororidade e complementaridade onde uma apoia a outra. É uma lição de vida e um exemplo social necessário. Para mim, está sendo maravilhoso tê-las no centro de tudo”, afirma.
SERVIÇO
Espetáculos “Comunhão” e “Nada é Suficiente”
Onde: Sesc Ipiranga
Endereço: Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga – São Paulo
Quando: 17 de abril a 31 de maio
Horário: sexta às 20h (nada é suficiente) e 21h20 (comunhão) / sábado às 20h (comunhão) / domingo às 18h (nada é suficiente)
Quanto: R$ 60 (inteira) R$ 30 (meia)
Classificação etária: 16 anos
Duração: Nada é Suficiente (60 minutos) – Comunhão (75 minutos)
Informações: através do site


