Passados mais de dez anos do lançamento de seu primeiro trabalho solo, o cantor e compositor Deluce retorna ao mercado fonográfico com “Pimenta”. No novo álbum, produzido por Guri Assis Brasil, o vocalista da banda Cartolas apresenta oito músicas que percorrem sua infância, as relações afetivas, as marcas que resistem ao tempo e sua maneira de observar e reagir ao mundo atual.
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Para marcar a estreia do disco, Deluce apresenta o clipe de “Pra Ela Eu Digo Sim”, gravado inteiramente com um celular e em formato vertical, escolha que se alinha à forma como grande parte do público consome vídeos hoje. O roteiro conta a história de um homem que vive com uma mulher imaginária e aborda, de forma poética, as fantasias e ilusões que habitam o universo dos casais.

O longo período que Deluce passou longe dos holofotes foi determinante na gestação do projeto. “Pimenta”revela um artista menos preocupado em se posicionar dentro de uma cena específica e mais disposto a revisitar de peito aberto a própria trajetória.
O artista exorciza seus fantasmas ao abordar episódios de bullying, a convivência turbulenta entre os pais, amores que misturam entrega e conflito e o constante desconforto diante do mundo que o cerca. Não se trata de um relato literal, mas de sentimentos subjacentes traduzidos em letras e melodias. “Hoje tenho maturidade suficiente para tocar nessas feridas. Esse disco não seria possível há uma década”, afirma.
Fazendo jus ao título, “Pimenta” arde, provoca e desperta. O trabalho se desenvolve a partir de variações de clima e intensidade, marcado por interpretações de acento teatral e por um jogo constante entre tensão e leveza. Não à toa, Deluce define a obra, com humor, como uma ópera burlesca tropical.
Há uma franqueza libertadora nos versos, e o uso deliberado do exagero dramático como recurso expressivo encontra lastro na Tropicália. “Sou adepto da tradição de artistas como Mutantes, Tom Zé, Arrigo Barnabé e Jards Macalé, que souberam incorporar crítica, ironia e deboche à linguagem musical”.
Os arranjos do álbum foram escritos por Guri Assis Brasil para acompanhar a dinâmica das composições. Instrumentos de sopro, teclados e percussões se somam à guitarra, baixo e bateria para criar uma base sólida, sobre a qual vocais e coros se projetam com liberdade. A escolha por uma sonoridade orgânica, com timbres que evocam uma estética vintage, confere ao trabalho uma personalidade atemporal.
Com o lançamento de “Pimenta”, Deluce inicia uma nova etapa de sua carreira. Ao assumir a vulnerabilidade como força criativa, suas experiências deixam de ser apenas memórias para se transmutarem na razão de ser do álbum. “Durante muito tempo, achei que lançar algo novo seria como jogar uma garrafa no oceano. Precisei entender para quem e por que estava fazendo isso. Hoje sinto que tudo faz sentido e fico feliz por ter levado a ideia adiante. Com ‘Pimenta’, começo uma nova jornada com gratidão, entusiasmo e convicção”, finaliza.


