“A MISTURA É A SOLUÇÃO”, DIZ MARTINHO DA VILA SOBRE SEU NOVO ÁLBUM “MISTURA HOMOGÊNEA”

O ARTISTA JUNTA A FAMÍLIA, CRUZA O RAP COM SAMBA RURAL E SONHA COM MUNDO DE UNIÃO E RESPEITO ÀS DIFERENÇAS
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12.03.2022

Albert Andrade

por Leonardo Lichote

Martinho da Vila lembra pouco do que aprendeu no curso de auxiliar de química industrial que fez no Senai na adolescência. Mas o que sobreviveu em sua memória — como tudo que se planta na cabeça de um poeta — virou poesia. É dessa época que ele resgata a ideia de “mistura homogênea”, termo que batiza o disco que lança agora, aos 84 anos. E que, o próprio Martinho afirma, é provável que seja seu último no formato — ele pretende continuar gravando, mas lançando apenas singles, canções isoladas.

MARTINHO DA VILA E TERESA CRISTINA LANÇAM SAMBA CONTAGIANTE DE “UNIDOS E MISTURADOS”

Na química, “mistura homogênea” é uma mistura na qual não se consegue perceber diferença entre as substâncias que a compõem — água com açúcar, por exemplo. Nas mãos de Martinho, “Mistura Homogênea” (Sony Music) é um encontro sem fronteiras definidas entre poesia e música, entre rap e partido alto, entre brancos e negros, entre samba rural e samba-enredo, entre reza e festa. Para atestar, há um time de participações especiais que vão de Zeca Pagodinho ao rabino Nilton Bonder, de Djonga a Hamilton de Hollanda, além de filhos e netos do compositor.

Mais do que um caminho estético, a proposta é a afirmação de um princípio para Martinho: “A mistura é a solução”, crava sem pestanejar o compositor. “Na minha família, os Ferreira, tem umbandista, candomblecista, evangélico, católico.  A gente se reúne todo ano. Cada um leva uma comida, a gente bebe, come, canta, reza. Todo mundo junto. Manda um cântico protestante depois da umbanda, é assim que tem que ser”.

Essa certeza baseou “Unidos e Misturados”, canção que abre o disco e que serviu de estopim para Martinho idealizá-lo. Com participação de Teresa Cristina, a música lançada como single em 2021 é uma ode à força da união em nome do bem. Com tempero do ponteio rural do cavaquinho (herança da Duas Barras, cidade natal de Martinho, no interior do Rio de Janeiro), a dupla propõe juntar os bons pra fazer um roçado. Pra quê? Cortar as ervas daninhas, “tais como as quais que estão lá no cerrado” — referência malandra à turma que ocupa o Palácio do Planalto hoje.

Da roça para o partido alto. “Vocabulário de um Partideiro” (assista abaixo) brinca com palavras que raramente são ouvidas numa roda de partido alto – formato de samba originalmente improvisado. A lista começa com “desembargar” e termina com “Guandu”, passando antes por outras como “parangolés”, “kiwis” e “brocoió”. Zeca Pagodinho e Xande de Pilares são os reforços da faixa, que ganhou um arranjo de pegada pop assinado por Rildo Hora.

Rildo é um dos muitos responsáveis pela sonoridade do disco. Além dele, o time de arranjadores inclui Rafael dos Anjos, Bruno Carvalho, Julio Alecrim e Maíra Freitas. Ou seja, a mistura proposta por Martinho foi fundo. A ideia de trabalhar com vários arranjadores de gerações e estilos diferentes veio de conversas do compositor com os produtores do disco, Celso Filho e Martinho AntônioPreto Ferreira completa o time da produção como assistente.

O álbum segue com “Sim Senhora”, que Martinho musicou a partir de um poema de Geraldo Carneiro. Nela, a mistura homogênea do disco inclui lirismo e humor (“Aqui em casa eu mando em tudo/ Revelo a verdade agora/ Tenho a última palavra/ E declaro: ‘Sim, senhora’”, diverte-se Martinho ao lado de Tunico da Vila, seu convidado na faixa). “Canção de Ninar”, que vem em seguida, também nasce de um poema, este de Salgado Maranhão – um dos preferidos de Martinho. Na cadência inconfundível do cantor (“Devagar, bem devagar”, diz um dos versos), se desenha um samba de amor curto e delicado.

MARTINHO DA VILA DIVULGA LIRYC VIDEO DE “VIDAS NEGRAS IMPORTAM”

A poesia é elemento fundamental na química do álbum, como reforça “Dois Amores”, que reúne Martinho, Hamilton de Holanda e a escritora moçambicana Paulina Chiziane. Sobre o bandolim de Hamilton, o compositor declama e canta uma louvação a seus dois amores: a música e a poesia. No fim, é Paulina (vencedora do Prêmio Camões em 2021 e fã de Martinho) quem declama versos seus feitos especialmente para o disco.

“Zuela de Oxum” é parceria com Moacyr Luz, que lançou a canção em 2003. Agora Martinho dá sua leitura a ela, saudando orixás sobre o arranjo que une agogô, acordeon e trombone. Depois do “saravá”, a faixa “Oração Alegre” propõe um alegre encontro ecumênico, como os das festas da família Ferreira. O pastor Henrique Vieira, o rabino Nilton Bonder e o líder muçulmano César Kaab Abdul, além do próprio Martinho, lançam suas mensagens de harmonia religiosa, apoiados no batuque de Carlinhos Brown, de pés fincados no terreiro.

Na sequência, vêm “Vidas Negras Importam” e “Era de Aquarius”, ambas lançadas como single em 2021. A primeira, parceria de Martinho com Noca da Portela, é um xote que – a partir das palavras de ordem lançadas pelo movimento Black Lives Matter – clama pela igualdade entre as raças. Já “Era de Aquarius” imagina um cenário de paz e felicidade para a Humanidade nas vozes de Martinho e de Djonga, mas enquanto o sambista projeta o sonho para o futuro, o rapper puxa sua realização para o presente.

MARTINHO DA VILA E DJONGA EMANAM UM CANTO DE ESPERANÇA NA CANÇÃO “ERA DE AQUARIUS”

Em “Semba Africano”, Martinho junta a canção angolana “Muadiakime” com “Semba dos ancestrais”, antiga parceria de Martinho com a violonista Rosinha de Valença. Ao lado de sua filha Alegria Ferreira, que faz sua estreia como cantora, o cantor celebra a ancestralidade (“muadiakime” em quimbundo significa “ancião”). A gravação também foi lançada como single em 2021. Outra filha de Martinho, a cantora Mart’nália, é a homenageada de “Viva Martina”. O cantor lembra que ela era a única filha para a qual, ao longo da carreira, ele não havia composto uma canção. Com leveza, ele traça um retrato preciso com um fecho de ouro: a rima de “pirralha” com “Mart’nália”.

Parceria de Martinho com João Bosco, já gravada anteriormente por ambos, “Odilê Odilá” serve de alegre cenário para o encontro de Martinho com seus netos Raoni Ventapane e Dandara Ventapane. E prepara o terreno para a grande reunião familiar em torno do patriarca em “Canta, Canta, Minhe Gente! A Vila é de Martinho”, samba-enredo da Vila Isabel para o carnaval de 2022, em homenagem ao compositor. Estão na gravação seus filhos Mart’nália, Tunico, Analimar, Martinho Antônio, Maíra, Juliana, Alegria e Preto, além dos netos Raoni e Dandara.

Gravado como se fosse na Sapucaí, com direito a anúncio do locutor, fogos de artifício na abertura e participação da bateria da Vila (sob batuta do mestre Macaco Branco), o samba descreve Martinho, de um lado o “profeta, poeta, mestre dos mestres” e de outro o que vai “pela 28, chinelo de dedo” – em referência ao Boulevard 28 de Setembro, via principal do bairro de Vila Isabel.

Antes da despedida, entram ainda citações a sambas clássicos que Martinho levou à Avenida, como “Glórias gaúchas”, “Quatro séculos de modas e costumes” e “Sonho de um sonho”. Deste, Martinho tira as palavras que dão o toque final à “Mistura Homogênea”: “Sonhei, sonhei”. E o álbum confirma mais uma vez – segue sonhando e materializando sonhos em melodia e poesia. Ouça na íntegra:

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