SÉRGIO GUIZÉ E BIANCA BIN ENFRENTAM DIÁGOLOS ÁGEIS E VERDADEIROS NA TRAMA “MEU DEUS”, NO TEATRO DAS ARTES, EM SÃO PAULO

COM DIREÇÃO DE ELIAS ANDREATO, OS ATORES VIVENCIAM UMA SESSÃO ENTRE DEUS, O CRIADOR COM UMA PSICÓLOGA
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23.06.2026

Caio Oviedo

A química entre os atores, o texto na ponta da língua e o timming imprimido durante o ensaio deram mostras do que está por vir. Numa tarde de sol e frio, final de maio, em um casarão na Vila Leopoldina, em São Paulo, o encontro organizado pela produção apresentou o espetáculo à equipe e revelou uma dinâmica deliciosa de parceria entre os dois artistas.

SERGIO GUIZÉ DIVULGA O TÃO AGUARDADO ÁLBUM SOLO “À DERIVA” COM PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

Morando no Interior de São Paulo (Indaiatuba), Bianca Bin e Ségio Guizé tira proveito do trajeto de carro até a Capital para decorar o texto da peça “Meu Deus”, com estreia no dia 24 de julho no Teatro das Artes para temporada até 1º de novembro. “Meu Deus!”, da dramaturga israelense Anat Gov, tem adaptação de Jorge Schussheim, tradução de Eloísa Cantom, versão brasileira de Célia Regina Forte e direção de Elias Andreato, figurino de Fábio Namatame, iluminaçãode Wagner Pinto.

O casal aproveita um ao outro o tempo todo. “Eu venho dirigindo de lá pra cá; da marginal até aqui dá mais ou menos uma hora. Ele, com o texto no banco do passageiro; a gente vem batendo as falasDá para fazer uma passada completa no percurso”, conta ela. O casal dribla a rotina e transforma a estrada em laboratório de ensaio. Uma cumplicidade que transborda no palco e na vida real.

SERGIO GUIZÉ APRESENTA A SEGUNDA PARTE DO ÁLBUM INTIMISTA “À DERIVA”

Na trama, Deus (Sérgio Guizé), assolado pela depressão que o persegue nos últimos dois mil anos, decide fazer terapia e espera que a psicóloga Ana (Bianca Bin) o ajude. Um texto espirituoso, com diálogos ágeis e verdadeiros, mesmo que aparentemente improváveis. Plateias do mundo inteiro surpreendem-se, riem, compactuam, torcem e, finalmente, se emocionam com essa sessão de terapia.

Ana é uma psicóloga que vive uma rotina marcada por tensões pessoais: ela é mãe solo de Paulo, um filho adulto com autismo, e lida diariamente com os desafios emocionais dessa relação. Certo dia, recebe um telefonema urgente e misterioso de alguém que insiste em se consultar com ela imediatamente. Esse paciente, que se identifica apenas como “D”, revela-se nada menos que Deus, o Criador. Ele está profundamente deprimido. Sentindo-se responsável pela “criação” que, segundo Ele, fugiu ao controle, Deus admite pensar no suicídio, tomado pela desesperança diante da humanidade e de tudo aquilo que se tornou.

Ana tem apenas uma sessão para ajudar Deus a ver sentido novamente, a encontrar forças para continuar enfrentando o mundo. A peça entrelaça humor, emoção e questionamentos teológicos e existenciais. A história, embora pareça fantasiosa, aproxima o espectador através do diálogo com temas universais: culpa, fé, responsabilidade, abandono, esperança.

A experiência e o talento do diretor Elias Andreato foi salientada pelos atores, que se sentiram à vontade para construir suas personagens. “A confiança em nos deixar livres, seguros e confortáveis para irmos em frente, sem ficar parando para marcar ou dar ênfase a alguns sentimentos, foi muito importante”, afirma Sérgio Guizé. O ator ressalta a troca como fator importante durante a etapa de ensaios. “Sob o olhar atento e a direção precisa do Elias, o processo ganhou muita sensibilidade. E dividir a cena com a Bianca é um privilégio absoluto; ela é uma atriz genial e a minha maior parceira na vida e na arte”. “Ter um grande diretor por trás faz toda a diferença. Elias pontua e extrai o melhor que a gente tem pra dar. Recebe e aproveita o que apresentamos. Sou muito fã desse cara”, fala Bianca Bin.

Sobre a ótima interação de Bianca e Sérgio em cena, Andreato aponta: “Independente do fato de vocês se amarem, o jogo na cena é muito difícil quando a química não rola. Eles são maravilhosos”. Bianca concorda que dar certo na relação amorosa não garante que o mesmo aconteça na interpretação. “Eu me divirto muito com ele, na vida e no palco. Nessa história também”. Elias Andreato cita a importância de reconhecer o talento do outro e trabalhar para que ele floresça. O prazer é mais relevante que o sucesso, acredita Elias, comentando que hoje o mundo vive em função do ego e o mais importante é a escolha que fazemos como artistas.

Para Andreato, o humor ácido de “Meu Deus” exige dos atores um caminho verdadeiro, sem buscar a graça no jogo cênico. “A situação inusitada já é suficiente. Assim, poderemos equilibrar a comédia e a visão crítica que a autora desenhou em sua dramaturgia, tão bem escrita e inteligente, ao trazer Deus para a terapia em um quadro de depressão”. Sobre sua direção, reflete como ele próprio aprendeu com esse olhar mais jovem sobre a dramaturgia de uma autora que fala sobre o momento político mundial, de uma transformação gritante. “Somos representantes de um gueto. A gente pode tocar alguém, divertir, levar à reflexão, fazer a comédia com alguma utilidade”.

O Deus de Sérgio Guizé é humanizado, deprimido e com um humor ácido. Às vezes até meio agressivo. Ele está em crise, tentando digerir os rumos do mundo e as próprias escolhas que fez nos últimos dois mil anos. Sobre como usar a leveza e o humor do texto sem esvaziar a gravidade de um personagem que cogita o suicídio, Sérgio diz: “A inteligência do texto já nos dá esse equilíbrio. O humor aqui não serve para mascarar a tragédia, mas para torná-la suportável. A leveza é o que nos permite mergulhar em um tema tão denso sem perder o fôlego”. Acostumado a papéis intensos e explosivos na TV e no cinema, o ator conta como fazer para humanizar um Deus frágil e deprimido sem cair na caricatura: “O desafio é encontrar o humor na dor e na verdade, sem ceder à tentação da piada fácil. O trunfo está em construir um personagem vulnerável com o qual o público consiga se identificar, e não apenas rir dele”.

Terapeuta brilhante, mãe solo, ateia, sobrevivente de um casamento falido e dos desafios de uma maternidade exaustiva, assim Bianca Bin enxerga sua personagem. “Ela acredita profundamente na razão, na ciência e na escuta, até que surge o maior desafio de sua carreira: receber Deus como paciente em seu consultório”. A mistura de força e vulnerabilidade da Ana encanta a atriz. “É uma mulher que cuida de todos, mas que também carrega suas próprias feridas e questionamentos”.

Conhecida pelo público em geral pelas protagonistas dramáticas que tem interpretado nas novelas de TV, a atriz rompe com este estereótipo para viver uma mulher exausta, que representa a “resistência humana” e precisa encarar Deus no divã. “Para mim, a próxima personagem é sempre o maior desafio, justamente por representar o desconhecido. Existe sempre um mistério a ser desvendado, e isso é o que mais me instiga na profissão. A Ana me convida a mergulhar em questões humanas muito profundas, e isso é especialmente estimulante”.

SERVIÇO

Espetáculo “Meu Deus”

Onde: Teatro das Artes

Endereço: Avenida Rebouças, 3970, Shopping Eldorado – São Paulo

Quando: 24 de julho a 1º de novembro

Horário: sexta e sábado ás 20h e domingo às 17h

Quanto: R$ 25 a R$ 160

Duração: 80 minutos

Classificação etária: 12 anos

Informações: através do site

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