STREETWEAR – ATRAVÉS DE SUA ESTÉTICA, CHORÃO CONTINUA PRESENTE EM CADA BONÈ DE ABA RETA E EM CADA CALÇA LARGA QUE CRUZA AS RUAS DA CIDADE

A RELAÇÃO ENTRE MÚSICA E MODA NA VIDA DO “MARGINAL ALADO” ERA SIMBIÓTICA – ELE NÃO SE VESTIA PARA O SHOW; ELE VIVIA A ROUPA
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26.05.2026

Divulgação

O streetwear brasileiro não pode ser contado sem mencionar a figura central de Chorão, líder do Charlie Brown Jr. Sua trajetória na moda começou muito antes dos palcos, nas pistas de skate de Santos. Para o skatista, a roupa nunca foi um acessório, mas um equipamento de sobrevivência e uma declaração de identidade. Nos anos 90, o estilo era puramente funcional: calças largas que permitiam o movimento e camisetas de algodão pesado que resistiam ao asfalto.

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A ligação de Chorão com o skate foi o alicerce de sua estética. O esporte não era apenas um hobby, mas a base de uma subcultura que rejeitava o formalismo. Como observa o jornalista e stylist Paulo Sanseverino: “O fenômeno do streetwear, personificado por figuras como Chorão, representa a transição da liberdade individual para uma manifestação coletiva de resistência cultural, onde o traje deixa de ser mera vestimenta para se tornar um estatuto de pertencimento”.

As inspirações de Chorão bebiam diretamente da fonte californiana. Ele adaptou o estilo dos Dogtown and Z-Boys para a realidade urbana brasileira. O uso de bonés de aba reta, correntes e bermudas cargo abaixo do joelho criaram um visual que, na época, era marginalizado pelos grandes centros de moda, mas adorado pela juventude que se via representada naquela “uniformização do caos”.

O streetwear no Brasil iniciou sua jornada de forma tímida, muitas vezes confundido com o simples uso de roupas esportivas. Chorão foi um dos catalisadores que deu “forma e rosto” a esse movimento no país. Ele provou que era possível unir a agressividade do punk rock com a fluidez do hip-hop, criando uma amálgama visual que falava a língua das periferias e dos centros urbanos simultaneamente.

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Hoje, o streetwear brasileiro é uma indústria multibilionária, mas suas raízes estão fincadas naquela autenticidade dos anos 90. O que antes era restrito às pistas de skate, hoje desfila nas semanas de moda de São Paulo e Paris. A evolução tecnológica dos tecidos e o corte mais refinado não apagaram a essência do “largo e confortável” que o líder do Charlie Brown Jr. defendia com tanto afinco.

As inspirações da moda urbana daquela época também flertavam com outros movimentos. Embora o street fosse focado na praticidade, ele absorveu elementos estéticos de diversas tribos. Chorão, com sua personalidade agregadora, conseguia transitar entre o público do rock, reggae e do rap, unificando essas tribos sob um mesmo teto visual: o das roupas que não restringiam o corpo nem a mente.

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Interessante notar a relação complexa entre a moda clubber e o street. Enquanto os clubbers exploravam o futurismo, o neon e os materiais sintéticos nos anos 90, o street trazia o contraponto orgânico e pesado. No entanto, ambos compartilhavam o desejo de ocupar o espaço público e a noite. Com o tempo, a influência skatista acabou “vencendo” em termos de longevidade, ditando o conforto como a nova norma do luxo.

O estilo skatista influenciou a moda global ao introduzir o conceito de “oversized”. A ideia de que o tamanho da roupa deve ser maior que o corpo para gerar uma silhueta específica é um legado direto das pistas. Marcas de alta costura hoje mimetizam o que Chorão já fazia intuitivamente: usar o volume como uma forma de proteção e imposição de presença no ambiente urbano.

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O ápice do empreendedorismo de Chorão na moda foi o lançamento de sua própria grife, a Do.CE. O nome, uma abreviação de “dose certa”, selava o compromisso do cantor com suas origens. A marca não era apenas merchandising de banda, mas uma tentativa séria de profissionalizar a estética urbana brasileira, trazendo qualidade às peças que ele mesmo gostava de usar.

As principais peças do streetwear estabelecidas por esse movimento incluem o moletom com capuz (hoodie), o tênis de sola plana com alta aderência e a onipresente calça cargo. No universo de Chorão, o boné era a “coroa”, um item inegociável que completava o arquétipo do skatista guerreiro. Cada peça carregava um simbolismo de autonomia e desapego às convenções sociais da elite.

Sobre essa estruturação do mercado, Paulo Sanseverino pontua: “A formalização de grifes próprias por artistas do street evidencia a maturidade de um setor que aprendeu a proteger sua propriedade intelectual e sua identidade visual, transformando a subversão em um legado econômico e cultural sólido para as próximas gerações”.

A relação entre música e moda na vida de Chorão era simbiótica. Ele não se vestia para o show; ele vivia a roupa. Isso trazia uma verdade que o público percebia instantaneamente. Seus vídeos musicais eram catálogos vivos de como o streetwear deveria ser portado: com atitude, sem frescura e sempre pronto para uma sessão de skate após o término das gravações.

Atualmente, o streetwear é o segmento que mais cresce na moda mundial, com colaborações entre marcas de skate e grifes de luxo francesas. Essa ponte foi construída por figuras que, como Chorão, insistiram em manter suas raízes enquanto ganhavam o mainstream. O estilo “desleixado chic” que vemos hoje nas ruas é um descendente direto da rebeldia santista.

Infelizmente, a trajetória de Chorão foi interrompida prematuramente em março de 2013. Sua morte deixou um vazio imenso na música brasileira, mas o impacto de sua imagem permanece intacto. Ele não deixou apenas discos de platina, mas um manual de estilo que continua a inspirar jovens que buscam na moda uma forma de gritar sua verdade para o mundo.

O legado de Chorão na moda e na música é eterno. Ele provou que o asfalto pode ser uma passarela e que a voz da periferia pode ditar as regras do consumo global. Através de sua estética, o “Marginal Alado” continua presente em cada boné de aba reta e em cada calça larga que cruza as ruas das cidades brasileiras, mantendo viva a chama de uma cultura que ele ajudou a pavimentar.

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