Benito Antonio Martínez Ocasio, o fenômeno porto-riquenho conhecido globalmente como Bad Bunny, transcendeu o status de artista para se tornar um pilar da cultura contemporânea. Ao levar o trap latino aos palcos mais prestigiados do mundo, ele não apenas quebrou recordes de streaming, mas rompeu barreiras linguísticas e geográficas.
Um marco definitivo de sua ascensão foi a emblemática performance no Super Bowl. Embora tenha suscitado debates acalorados, sua presença em um dos maiores eventos da cultura norte-americana consolidou uma discussão necessária sobre identidade e representatividade: o reconhecimento da América Latina como parte integrante e pulsante da experiência americana.

Getty ImagesBunny consolidou-se como um verdadeiro ícone da moda, transitando com naturalidade entre looks ousados e a sofisticação minimalista. Sua disposição em desafiar normas estéticas reflete uma identidade artística que não conhece barreiras para a criatividade. Essa evolução visual é impulsionada pela colaboração estratégica com profissionais renomados como Storm Pablo, stylist que foi peça-chave na metamorfose do artista, elevando sua imagem de um jovem de estilo básico a um dos nomes mais influentes do cenário fashionista global e Marvin Douglas Linares, outra figura de destaque que contribui para a precisão e a originalidade das composições que definem a estética única do cantor.
O artista porto-riquenho se fortaleceu como uma figura central na redefinição da masculinidade contemporânea dentro da indústria da moda. Ao utilizar sua imagem como uma plataforma de expressão pessoal e política, o músico desafia sistematicamente as normas de gênero aplicadas ao vestuário, circulando com fluidez entre o streetwear e a alta costura.

Sua abordagem estética é fundamentada na premissa de que a moda deve ser isenta de regras binárias, defendendo publicamente que o vestuário não possui gênero intrínseco. Essa filosofia se manifesta na incorporação frequente de elementos tradicionalmente femininos em seu repertório visual, tais como, o uso recorrente de unhas pintadas e acessórios de design extravagante. A adoção de saias em plataformas de grande alcance, como sua icônica participação no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon.
O cantor utiliza a estratégia da moda para pautar questões sociais urgentes, a exemplo de seus protestos contra a transfobia e a violência de gênero em Porto Rico. Através de colaborações com marcas de prestígio, Bad Bunny estabeleceu um vocabulário visual único que não apenas dita tendências, mas também promove um debate global sobre identidade, liberdade individual e representatividade cultural.

The Tonight Show“Entendo que, por se tratar de um artista de alcance global e personalidade polarizadora, a curadoria de sua imagem exige um rigor estratégico. Embora eu defenda que a moda seja um território amplo e plural, acredito que, em certos contextos, o equilíbrio é a melhor opção. Ao analisar alguns de seus ensaios, observo que a linha entre o vanguardismo e o excesso foi rompida, resultando em composições que beiram o anacrônico. O uso de estampas conflitantes e silhuetas que não estabelecem um diálogo visual acaba convertendo o que deveria ser fashion em algo involuntariamente cômico, tornando-se um alvo fácil para críticas e diluindo o impacto de sua proposta estética”, comenta o jornalista e stylist Paulo Sanseverino.
A influência de Bad Bunny reconfigurou drasticamente a estratégia de comunicação das grandes marcas de luxo e lifestyle com o público latino e a geração Z. Sua parceria com a Adidas, por exemplo, é considerada um marco comercial e cultural, na qual o artista reimagina silhuetas clássicas, como o Forum Buckle Low, elevando calçados de performance ao status de itens de colecionador e desejo global. Essa colaboração demonstra como sua identidade visual consegue transpor as fronteiras do entretenimento para se consolidar como uma força motriz no mercado de bens de consumo.

Getty ImagesNo cenário da alta moda, o artista estabeleceu-se como um embaixador da estética avant-garde, protagonizando momentos históricos em eventos de prestígio. Sua relação com a grife Jacquemus rendeu aparições memoráveis, como o uso de um terno com as costas expostas e uma imponente capa floral no Met Gala, desafiando as convenções do tapete vermelho. Além disso, ao incorporar peças de marcas como Gucci e Louis Vuitton ao contexto do trap, Benito ressignifica o uso de moletons e bolsas de luxo, transformando-os em novos símbolos de um estilo masculino contemporâneo e plural.
Essa presença magnética é amplificada por campanhas globais para marcas como a Calvin Klein, que utilizam sua imagem para projetar um apelo estético universal. Ao caminhar com facilidade entre diferentes segmentos da moda, Bad Bunny não apenas dita tendências, mas valida uma nova forma de consumo onde a autenticidade e a quebra de paradigmas são os principais valores.

Getty ImagesOutro fato importante que marcou sua trajetória na moda internacional foi a cerimônia do Grammy Awards de 2026 que registrou um episódio sem precedentes na intersecção entre a música e a moda de luxo, quando Bad Bunny trajou a peça inaugural de alta-costura masculina produzida pela Schiaparelli. Sob a direção criativa de Daniel Roseberry, o traje simbolizou o ingresso oficial da renomada casa francesa no segmento de vestuário masculino para eventos de escala global. A composição baseou-se em uma releitura de um exemplar feminino da coleção Spring 2023, fundindo a herança surrealista da marca à natureza disruptiva do intérprete porto-riquenho.
O conjunto de alfaiataria, confeccionado em veludo negro, apresentava uma modelagem acinturada e ombreiras proeminentes, ornamentado com botões artesanais que simulavam fragmentos de vidro. O elemento de maior impacto residia no dorso do paletó, que exibia um fechamento por amarração similar a um espartilho, subvertendo os padrões clássicos da moda para homens. Com referências diretas ao icônico frasco da fragrância Shocking, de 1937, as lapelas ostentavam bordados que mimetizam fitas métricas, um dos códigos visuais mais emblemáticos de Elsa Schiaparelli.

Mar+VinPara além da relevância estética, a ocasião consagrou a trajetória profissional do artista, que foi laureado com o prêmio de Álbum do Ano pelo disco “Debí Tirar Más Fotos”. Tal conquista conferiu a ele o título de primeiro músico a obter o reconhecimento máximo da academia com um projeto inteiramente gravado no idioma espanhol. Essa vitória, somada à escolha de um figurino tão conceitual, solidificou sua posição como uma força cultural capaz de dominar tanto as paradas musicais quanto os palcos da alta moda internacional.
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A relação de Bad Bunny com a moda brasileira atingiu um novo patamar em fevereiro de 2026, consolidando o Brasil como um território estratégico para a reafirmação de sua identidade estética latina. Ao visitar o país, o artista integrou deliberadamente elementos e marcas nacionais à sua imagem, transformando sua estreia nas capas da Vogue Brasil e da GQ Brasil em um marco editorial histórico.
Esse movimento não apenas celebrou a cultura local, mas também destacou a força do design brasileiro no cenário global por meio de ensaios que priorizaram a conexão com a produção nacional. Entre as escolhas de figurino mais emblemáticas, destaca-se o uso de um conjunto marrom da Mondepars, complementado por uma gravata de madeira, o que reforçou o prestígio da nova geração da moda brasileira. Para finalizar o visual de capa, o cantor optou pelas icônicas sandálias de dedo, elevando o símbolo máximo da identidade visual cotidiana do Brasil ao status de alta moda.

O interesse genuíno de Benito pelo design contemporâneo nacional também ficou evidente durante sua passagem por São Paulo, onde sua visita a uma unidade da marca Misci, comandada por Airon Martin, gerou grande repercussão e confirmou seu olhar atento às tendências locais. Nos palcos paulistanos, Bad Bunny utilizou o vestuário como uma ferramenta de celebração da latinidade e do sentimento de pertencimento brasileiro.
Ao vestir peças históricas da Seleção Brasileira, como as camisas das Copas de 1962 e 1966, articuladas por sua equipe de estilo em parceria com profissionais locais, o artista estabeleceu um diálogo direto com a memória afetiva do país. Além disso, o uso de uma camiseta exclusiva criada por um designer de Joinville, Santa Catarina, demonstrou um alcance cultural que transcende o eixo Rio-São Paulo. Para o intérprete, a moda brasileira atua como um elo cultural essencial, reforçando a premissa de que, apesar das barreiras linguísticas, Brasil e Porto Rico compartilham uma base comum de resistência e criatividade.
“Acredito que a força da imagem de Bad Bunny reside justamente em sua estética tipicamente masculina, o que lhe confere uma base sólida para ultrapassar fronteiras sem ser imediatamente paralisado por preconceitos sistêmicos. Ele se mantém fiel às suas convicções, evidenciando que o vestuário é desprovido de gênero e que a singularidade, embora atraia julgamentos, não deve ser um fator de intimidação”, pontua Paulo Sanseverino.
“Através de cada escolha visual, o rapper entrega uma mensagem clara: a moda é, acima de tudo, uma questão de atitude e um ato político. Sua trajetória prova que é possível ocupar espaços de poder sem abrir mão da própria essência, utilizando a roupa como uma ferramenta de resistência e transformação cultural”, finaliza o stylist Sanseverino.


