A artista estadunidense Kayleigh Rose Amstutz, artisticamente conhecida como Chappell Roan, consolidou-se como um dos maiores fenômenos da música contemporânea. Natural do Missouri, a cantora expandiu sua trajetória para além de suas origens locais, desenvolvendo uma identidade artística que une composições autênticas a um timbre vocal distintivo e uma estética visual extravagante.
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Seu nome artístico é um tributo ao seu avô, Dennis K. Chappell, combinado ao título de sua canção favorita, “The Strawberry Roan”, clássico de Marty Robbins originalmente publicado em 1915. A ascensão de Roan no mercado global é marcada pela originalidade de sua proposta artística e pela conexão direta de sua obra com o público atual.
Chappell Roan é uma das artistas mais performáticas da cena contemporânea, tornando-se um ícone fashion ao fundir referências da cultura drag, o pop dos anos 80, looks de faroeste e elementos medievais. A identidade visual da cantora é assinada pela stylist Genesis Webb, cuja colaboração estratégica foi fundamental para a construção de sua estética maximalista e andrógina.

As referências de Webb para o projeto incluem a emblemática drag queen Divine, no filme “Pink Flamingos”, e o movimento Club Kids de New York, retratado em “Party Monster”. A parceria entre artista e stylist originou-se da afinidade mútua pelo vintage e pelo garimpo em brechós, evoluindo para um processo criativo que desafia os limites do vestuário pop tradicional. Um dos marcos dessa colaboração foi a performance no NPR Tiny Desk, onde Roan utilizou um vestido fúcsia assinado por Betsey Johnson e uma peruca colmeia adornada com bitucas de cigarro, simbolizando a união entre o glamour e o subversivo.
Historicamente marginalizada e restrita a espaços de resistência e eventos clandestinos, a cultura drag evoluiu para uma manifestação artística de amplo alcance global. No cenário contemporâneo, a moda drag transcende o vestuário, configurando-se como uma ferramenta de auto expressão, rebeldia e crítica social.

“Falar abertamente sobre sexualidade e transpor a própria identidade para o que vestimos é um ato de coragem para poucos. No caso de Chappell Roan, essa entrega é visceral: ela exala personalidade e ousadia em cada escolha de look e maquiagem. Ao abraçar a comunidade drag e colocar os holofotes no maximalismo, com cores vibrantes e proporções exageradas, Chappell faz muito mais do que seguir uma tendência; ela retira uma cultura historicamente marginalizada dos guetos e a posiciona com orgulho no centro do mercado fashion”, comenta o jornalista e stylist Paulo Sanseverino.

“Para mim, o que a torna tão fascinante é perceber que essa estética vai além do visual. É algo profundamente pessoal e íntimo. Não há nada mais autêntico do que vestir exatamente o que você é e sente. É claro que existe todo o espetáculo midiático ao redor da artista, mas aqui a regra do “menos é mais” perde totalmente o sentido. Chappell é única justamente por entender que sua imagem é seu manifesto”, complementa.
Para os artistas desse segmento, a estética é utilizada para subverter normas de gênero e desafiar convenções sociais. Por meio da criação de personas complexas, as drag queens promovem o entretenimento ao mesmo tempo em que estimulam diálogos fundamentais sobre diversidade e inclusão. Nesse contexto, Chappell Roan emerge como uma figura central ao integrar esses elementos em sua carreira musical.
Identificando-se como lésbicae queer, a artista utiliza sua obra e sua imagem pública para pautar a liberdade individual e a autenticidade. Suas composições e seu estilo visual funcionam como um manifesto de resistência, reafirmando sua identidade e consolidando-a como uma voz representativa da comunidade LGBTQIA+ na indústria fonográfica.
A trajetória de Chappell Roan como ícone de estilo atingiu seu ápice entre 2024 e 2026, consolidando sua imagem por meio de escolhas estéticas que unem teatralidade, referências históricas e alta-costura subversiva. A artista utiliza a moda não apenas como vestuário, mas como uma extensão performática de sua identidade queer e camp. Confira a seguir:
· Governors Ball (2024): Roan apresentou uma das imagens mais marcantes do ano ao interpretar a Estátua da Liberdade. O visual incluiu pintura corporal verde integral e uma coroa estruturada, simbolizando uma apropriação artística de ícones patrióticos norte-americanos sob uma lente revolucionária.

· Homenagem a Cyndi Lauper: Em outra performance memorável, a cantora utilizou um figurino confeccionado em jornal, com saia de tiras e top de cristais. A peça referenciou diretamente o estilo oitentista de Cyndi Lauper, fundindo o reaproveitamento de materiais com a sofisticação da maquiagem colorida e vibrante.

· The Tonight Show: A artista explorou uma estética de “Cisne Negro” obscuro, utilizando um visual teatral composto por plumas e elementos do balé clássico reinterpretados de forma gótica e dramática.

· Festival Bonnaroo Music: Demonstrando sua conexão com a cultura Club Kid, Roan utilizou um conjunto de látex da Aimless Gallery, evocando a cena alternativa de New York dos anos 80 e 90.

· Grammy Awards (2026): Em uma aparição que gerou amplo debate na crítica especializada, a cantora desfilou um design transparente da grife Mugler, sustentado estrategicamente por piercings presos aos mamilos, desafiando as convenções de vestuário dos tapetes vermelhos tradicionais.

· MET Gala (2026): Reafirmando sua versatilidade, Roan optou por um terno rosa de alto brilho com calças flare e fendas laterais, equilibrando a alfaiataria clássica com a exuberância característica de sua persona artística.

A influência de Chappell Roan transcende a indústria do entretenimento, consolidando-a como uma figura central no desenvolvimento da identidade de jovens e adolescentes ao redor do mundo. Através de uma fusão estratégica entre vestuário, maquiagem artística e composições verdadeiras, a artista oferece um contraponto às pressões sociais contemporâneas, demonstrando que a aceitação da própria identidade é um processo de libertação, autenticidade e celebração.
Um aspecto fundamental da narrativa de Roan é sua relação com ritos de passagem que não pôde vivenciar. Devido ao início precoce de sua carreira musical, que coincidiu com a conclusão do ensino médio, a artista não participou de seu próprio baile de formatura. Hoje, ela ressignifica essa lacuna transformando cada apresentação de sua turnê em um “baile temático”.

Ao incentivar os fãs a comparecerem trajados com figurinos que remetam às suas próprias formaturas e sonhos estéticos, Roan promove um ambiente de inclusividade e pertencimento. Essa prática não é apenas estética; é uma ferramenta terapêutica e social que permite ao público ocupar espaços de destaque que lhes foram negados ou que temiam acessar.
Além do impacto visual, Chappell Roan destaca-se por sua honestidade intelectual ao abordar temas sensíveis como vulnerabilidade na saúde mental, onde discute abertamente suas experiências com crises de ansiedade e os desafios impostos pela pressão das redes sociais. Ao expor suas fragilidades, ela humaniza a figura do ídolo, estabelecendo uma conexão de proximidade e confiança com o público, assemelhando-se a uma figura de apoio e acolhimento. Sua mensagem central “ser quem você é”, atua como uma resistência política e pessoal contra estigmas sociais, provando que a diversidade é, fundamentalmente, uma fonte de poder criativo.
A presença de Chappell Roan no mercado musical atual é, portanto, indispensável. Ela não apenas entrega entretenimento de alta qualidade, mas atua como um catalisador para que novos indivíduos encontrem coragem para expressar suas verdades em uma sociedade que, muitas vezes, ainda resiste ao diferente.


